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A gravidez na adolescência é um
problema muito comum, não só no Brasil, como também no mundo.
Antigamente, no tempo das nossas avós ou bisavós, ela também ocorria,
mas não causava os problemas que hoje causa. Vários são os motivos da
gravidez na adolescência. Eles podem ser biológicos, sociais, culturais
e até econômicos.
A CADA GERAÇÃO, A MENARCA VEM MAIS CEDO
Inicialmente, a mulher moderna
amadurece cada vez mais cedo. A menarca, que é a idade da primeira
menstruação na mulher, tem sido cada vez mais precoce, ao se
considerarem os registros existentes nos últimos 100-200 anos. A cada
geração que se passa, a menarca se faz, em média, alguns meses mais
cedo. Para se ter uma idéia, em 1845, metade das mulheres ainda não
tinham menstruado com a idade de 15 anos. Atualmente a menarca média
situa-se por volta dos 12 anos, no Brasil. Possivelmente, melhores
condições nutricionais responsabilizam-se por isso. No entanto,
variações climáticas e maior exposição a estímulos sexuais visuais
precocemente talvez também estejam relacionados, pois se sabe que
mulheres de paises nórdicos, com dias curtos e longos invernos, e
mulheres cegas, menstruam mais tardemente que as demais. Ora, se as
mulheres estão menstruando mais cedo, também estão desenvolvendo
características sexuais e se tornando biologicamente férteis mais
precocemente do que antes. Se a mulher se torna atraente sexualmente
mais cedo, é possível, a princípio, que ela também possa ter relações
sexuais mais cedo e, assim, engravidar. Esta é uma boa razão para o
aumento da gravidez na adolescência. Mas não é o único, afinal, nem toda
mulher com capacidade para engravidar, acaba engravidando.
FATORES SOCIAIS CONTRIBUEM?
É bem verdade que a idade do início da
vida sexual tem caído nos últimos anos, mas também é verdadeiro que isso
depende muito do grupo social a ser considerado. Em mulheres de favelas
do Rio de Janeiro, por exemplo, esta idade se situa por volta dos 12 -
13 anos. No entanto, entre jovens universitárias do Rio Grande do Sul,
tal idade está ao redor dos 16 - 17 anos. Ou seja, neste último grupo de
mulheres, apesar de estarem menstruando pelo mesmo tempo do que as
outras, a opção pela primeira relação sexual foi mais tardia. Assim
parece que os contextos social, cultural e econômico são também muito
importantes.
ESTRUTURA FAMILIAR INFLUENCIA?
Adolescentes com casos de gestação na
adolescência na família parecem ser de risco, para elas também serem
gestantes nesta fase da vida, principalmente quando o “exemplo” vem da
própria mãe. Outro fator de risco é a pertença a uma família
desestruturada, com atritos entre os pais, e especialmente com ausência
da figura paterna. Famílias de migrantes, em adaptação a um novo
contexto cultural, também apresentam riscos para a presença de uma filha
adolescente grávida.
FATORES ECONÔMICOS SÃO DETERMINANTES?
Classicamente se apresenta a situação
econômica desfavorável como de risco para a gravidez na adolescência.
Isso é algo controverso. Primeiro, porque muitas adolescentes de classe
econômica mais favorecida também chegam a engravidar, mas a opção pelo
abortamento é mais comum e há mais facilidade para o aborto clandestino
efetivo, diminuindo assim a quantidade de partos nestas pacientes.
Depois, muitas vezes o contexto econômico se relaciona com o social e o
cultural. Infelizmente, a mulher mais pobre tem maior chance de ter uma
família desestruturada, migrante, com antecedentes de gestação na
adolescência. Além disso, a jovem de tal família tem, muitas vezes,
menor escolaridade e acesso dificultado aos serviços de saúde, outros
dois fatores de risco conhecidos.
EDUCAÇÃO PODE PREVENIR
A menor escolaridade funciona como
fator de risco de duas maneiras. Na primeira, temos menor esclarecimento
sobre os métodos anticoncepcionais e um menor entendimento sobre o mundo
e sobre sua própria saúde. Num segundo aspecto, a interrupção dos
estudos indica falta de perspectiva de vida, principalmente na dita vida
social, surgindo poucos planos para o futuro, para sua própria vida.
Este é um aspecto que tem chamado nossa atenção nos últimos anos, tanto
no Hospital das Clínicas, como em outros locais. Geralmente, a
adolescente que engravida já tinha parado seus estudos antes da
gravidez, ou faz isso nos primeiros meses da gestação, muitas vezes
porque não gostava da escola e não tinha grandes perspectivas de vida,
além da possibilidade de ser mãe e dona-de-casa.
ACESSO AOS SERVIÇOS DE SAÚDE
Por outro lado, o não acesso aos
serviços de saúde e, assim aos métodos anticoncepcionais, ocorre de duas
formas. O não acesso aos serviços de saúde ocorre inicialmente pelo fato
muito comum destas jovens morarem em locais distantes, com poucos
serviços de saúde à sua disposição. No entanto, a falta de escolaridade
contribui ainda mais para ausência de cuidado médico, pois sem
esclarecimento, a jovem não percebe a importância do cuidado com a saúde
e acaba não fazendo nada neste sentido. Mas, por outro lado, os serviços
médicos também não estão estruturados para receberem as adolescentes. A
atenção para com elas seria mais de prevenção e orientação e a estrutura
está montada mais no aspecto curativo e de assistência às doenças.
Assim, tais jovens não procuram assistência, por não acharem isso
importante, e a assistência acaba não sendo feita por não estar de
acordo com a expectativa da clientela, ou seja, as próprias
adolescentes. O não acesso aos serviços de saúde também acaba se
relacionando com o desconhecimento e o não uso de anticoncepcionais,
fazendo com que a vida sexual destas jovens esteja ainda mais
predisposta à gravidez.
TODOS PODEM AJUDAR
Na verdade, a orientação quanto à
sexualidade e aos métodos anticoncepcionais é falha em varias
instâncias. Tal orientação não necessitaria ser dada apenas pelos
profissionais da saúde. A escola e a família poderiam se responsabilizar
por isso, mas geralmente não o fazem e, no caso específico das pacientes
que atendemos no Hospital das Clínicas, há grande dificuldade de tal
orientação vir da família e da escola, pois a jovem está, via de regra,
fora da escola e não tem uma família estruturada para apóia-la e
orientá-la. O papel do pai neste contexto é fundamental, pois deveria
representar o limite, a autoridade, a responsabilidade, valores e
qualidades que muito ajudam no correto desenvolvimento não só da
sexualidade, como também de todo convívio social do jovem. Neste
sentido, sabemos que o conhecimento dos métodos anticoncepcionais, por
si só, não representa proteção. Na, maioria das gestantes adolescentes,
elas conheciam os métodos, mas não os souberam usar no momento certo. A
emoção superou a razão, o que comprova que não havia maturidade
suficiente para o exercício responsável da sexualidade. O aprendizado
ainda estava por se completar, infelizmente.
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